COMO DESENVOLVER UMA NOVA COMPETÊNCIA PESSOAL OU PROFISSIONAL

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ABRAHAM SHAPIRO para o Portal Profissão Atitude

O jovem engenheiro que trabalhava na pequena indústria mecânica em fase de pleno crescimento procurou-me para uma situação frente à qual se sentia desorientado.

- “Sr Shapiro, eu fui promovido a gerente e o meu diretor disse-me que devo desenvolver a competência da agilidade. Eu não faço a mínima ideia por onde começar!”

- “Eu posso lhe ajudar” – disse a ele. “Mas antes, quero explicar alguns pontos, se você me permite.”

- “Sim, é claro. Eu preciso muito” – disse ele mostrando interesse.

- “Comecemos pelo que você acaba de dizer: ‘Eu preciso muito’. No dicionário, ‘precisar’ e ‘necessitar’ são sinônimos. Na prática não é bem assim. Eu preciso de um pente para pentear os cabelos. Eu preciso de uma calculadora. Eu preciso de um relógio, de ouvir música, de uma poltrona confortável para leitura. No entanto, eu necessito de tomar água, necessito me alimentar,  necessito de ter fé, necessito de aperfeiçoar a minha personalidade, necessito do amor das pessoas com quem convivo etc. Você entende?

- “Acho que entendo, sim. Precisar é bem menos que necessitar”.

- “Bem menos não posso afirmar. Mas diferente, sim” – eu respondi. “Para entender competências é definitivo ter visão de que elas são uma necessidade humana. Sem competências não há desenvolvimento da personalidade e, portanto, não há evolução ou autodesenvolvimento.

Se você não sabe o que é a personalidade, darei uma ideia simplificada e nada técnica. A nossa personalidade é um retrato de quem somos, ou melhor, ‘do que somos’ e ‘como somos’. É o conjunto das qualidades que definem o nosso modo único e original de ser. Tudo o que faz parte desse conjunto de características é muito fácil de desempenhar ou expressar. Eu, por exemplo,  sinto-me bem quando dou reconhecimento às pessoas. Isto é fácil para mim. Sabe por que? É um traço da minha personalidade.

O Francisco, meu amigo, é diplomático. Esta característica intrínseca de sua personalidade vem junto de outras que todo mundo observa nele: tolerância, paciência, bom trato às pessoas. Então, dizemos que isto é natural no Francisco. Ele manifesta estas qualidades sem nenhum esforço.

Já, outra característica, digamos: a capacidade de exercer controle sobre os membros de sua equipe não é um traço forte ou intensamente presente na personalidade do Francisco. Mas acontece que ele é um gerente e uma de suas funções é controlar as pessoas sempre que a situação exige. Como ele faz? Ele aprendeu o método de como controlar e investe algum esforço em executá-lo, uma vez que ‘controle’ não é um traço natural de sua personalidade. Sempre que isso acontece, dizemos tratar-se de um traço situacional de personalidade, porque a pessoa o expressa não naturalmente, porém apenas quando as situações exigem.

E agora, olhemos outra característica do meu amigo Francisco. Eu sei que ele não é uma pessoa ambiciosa, isto é, ‘ambição’ no sentido de ‘insatisfação com sua situação atual e o desejo de promover mudanças para melhor. Daí ser esta uma competência muito distante de seus traços naturais. Na verdade é como um ponto fora da curva das características principais dele. Assim, caso ele deseje tornar-se mais ambicioso, ele deverá investir um esforço relativamente grande para adquirir esta competência. Por causa dessa força que é preciso ser feita para a aquisição deste traço de personalidade que não lhe é natural e nem situacional, dizemos que a ambição é uma competência ‘atitudinal’ no Francisco, pois exige atitude, ou grande esforço.

Olhemos para o seu caso agora. Você necessita ser ágil, não?”

-  “Sim. E agora quero usar o verbo certo: eu necessito ter agilidade,” – o jovem engenheiro respondeu, convicto.

Eu prossegui:

- “Tenho quase certeza de que o seu líder na empresa tenha constatado algum traço de lentidão em você, seja nas suas ações, seja nas decisões. A pergunta a ser feita aqui é: ‘Como desenvolver uma nova competência?’, ou melhor: ‘Como desenvolver uma competência que não é natural e nem situacional entre os traços predominantes da sua personalidade?’

Eu conheço um método. E vou mostrá-lo a você passo a passo. Vamos e ele:

PASSO 1: CONSCIÊNCIA. O primeiro passo é TER CONSCIÊNCIA DA SUA NECESSIDADE. Enquanto você não enxergar a competência a ser desenvolvida com os olhos da necessidade, nada acontecerá. Absolutamente ninguém, em todo o planeta Terra, tem o poder de fazer outro ser humano querer algo. Quando você tiver vontade poderosa e resoluta, este será o sinal de que a sua consciência já aceitou a competência que você ainda não tem e o processo de “aquisição” já iniciou. A partir de então será mais fácil.

Mas ainda faltam os demais passos.”

- “Não parece difícil”, o rapaz disse mostrando certa segurança.

- “E não é”, coloquei de pronto, “desde que se queira muito, e não poupe esforço.”

E continuei:

PASSO 2: CONCEITO. “O segundo passo compreende uma ação com que poucos se preocupam e por isso não logram sucesso em conquistar a nova competência. É a chave de acesso inteligente à meta. Consiste em CONCEITUAR A COMPETÊNCIA, isto é, conhecer seu significado, mas ainda de modo genérico. Nesse estágio você deverá pesquisar sobre as várias facetas do que ela é, ler livros a respeito, artigos e conhecer seus vários atributos e benefícios. 

Por que é importante conceituar?

Certa vez, um jovem gerente me disse necessitar da competência de ‘Gestão do Tempo’. Eu lhe perguntei o que exatamente ele esperava conseguir com isso. Ele começou falando que gostaria de ‘fazer muitas coisas ao mesmo tempo’. Eu lhe mostrei que isto não é bom, a menos que ele fosse trabalhar como malabarista em um circo. Então, ele emendou dizendo que se tratava realmente de aprender a ‘fazer primeiro o que tem que ser feito primeiro’ e depois o que viesse depois.  Pronto. Ficou claro. Eu lhe mostrei que isso pouco ou nada tem a ver com gestão do tempo, mas com ‘critérios de priorização’.  Enfim, se ele tivesse feito o que achava ser sua necessidade, teria perdido tempo. É absoluto que se conceitue o que se deseja antes de agir.

Quantas vezes usamos palavras ou verbos sem saber seu significado? Até por força de seu emprego repetitivo nos meios sociais que frequentamos.  Por isso é importante usar um bom dicionário, o Google e os demais recursos disponíveis para conhecer a palavra.

PASSO 3: ADEQUAÇÃO DO CONCEITO. Chegamos agora ao passo da ADEQUAÇÃO DO CONCEITO. É a terceira etapa do processo. O que acontece aí?  Tomemos o exemplo de uma competência chamada ‘senso de urgência’, cujo significado é ‘executar o mais rápido possível uma prioridade’. Após saber seu conceito geral, você agora terá condições de entender que o senso de urgência em atendimento num pronto socorro de um hospital é drasticamente diferente do senso de urgência numa oficina mecânica. Essencialmente, em ambos locais a competência terá a mesma natureza. Porém, seu exercício prático deverá se manifestar de modo diferente na oficina ou no hospital, concorda?”

Ele balançou a cabeça afirmativamente, compenetrado. E eu avancei na explicação.

- “Portanto, concluímos que no estágio da Adequação do Conceito você deve ajustar o significado de ‘ser ágil’ à sua vida e ao seu trabalho a fim de que não tenha a tendência de exagero ou de falta, mas tenha o ponto de equilíbrio que a sua função carece. E para fazê-lo da melhor maneira, aconselho que você retorne ao seu líder e pergunte objetivamente como ele gostaria que você aplicasse a agilidade no novo posto que você irá ocupar. E depois que ele disse – e você entender claramente –, estará pronto para o próximo passo.

PASSO 4: ESFORÇO.  Chegou o momento em que você começará a pôr a consciência e os conhecimentos adquiridos para funcionarem plenamente. Como? Lembrando-se o tempo todo de que você foi lento e agora precisa desenvolver a agilidade requerida pela nova função... e investindo energia em viver o conceito e sua adequação.  Talvez uma ilustração ajude o seu entendimento.

Imagine que você está no seu carro, dirigindo tranquilo. Olha para os lados, mantém a velocidade e observa coisas que chamam a sua atenção. Subitamente, o veículo à sua frente freia. Sem tempo de resposta, o seu carro bate na traseira dele. Você e o outro motorista descem e constatam não ter havido dano material algum. Cumprimentam-se com cortesia e se vão. Foi só um susto.

Uma mudança muito grande vai ocorrer a partir de então. Você ficará mais atento e cuidadoso, mais  ‘ligado’. Não dará mais atenção ao que antes concorria com o fluxo do trânsito. Deste momento em diante, as suas chances de provocar um novo acidente serão muito baixas, próximas de zero. Por quê? A resposta é: aquele acidente recente despertou a sua consciência para tudo o que você devia praticar em segurança e direção defensiva, mas desprezava.

Portanto, se você necessita tornar-se mais ágil, a partir de agora deverá esforçar-se para ser assim a cada instante em que houver oportunidade.  No princípio, poderá até ser um tanto estressante devido ao esforço de consciência e de ação. Mas com o tempo e com a prática, ‘agilidade’ será incorporada aos seus hábitos e se tornará uma aquisição para sempre, uma propriedade sua, um traço natural da sua personalidade.

O esforço é a porta que dá acesso a todas as possibilidades de conquista.

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